Duas personalidades simpáticas, devido a uma cadeia de ações motivadas pelo instinto de sobrevivência, ou graças à movimentação deste enquanto primeiro motor, optaram por conversar. Aos olhos do observador, tratava-se de uma decisão com cinquenta porcento de chance de ser abarcada e com igual chance, isoladamente, de trazer sucesso.
O ambiente onde elas estavam era de um azul acinzentado desenhado por nuvens grisalhas. Grandes e singulares prédios inseriam sua consciência no ambiente urbano de grande movimentação; não vinha a este caso qual o era. Certamente, estava no horário de pico de alguma metrópole. Ao despertar do sono, a descrição acima era tudo o que Glu sabia. Uma figura com um sorriso largo a observava.
- Oi, que legal ter você por aqui!
- Acho que sim, quer dizer...você me parece legal. - mencionou Glu
- Fico lisonjeada, obrigada pelo elogio.
- Imagina! - Glu respondeu automaticamente
- Imaginar o quê? Não acredito que requer grandes esforços pensar que eu eu sou legal. Achei que você estava sendo sincera, mas prefiro que você destine sua imaginação a algo mais válido - ordenou Pin
- Ah, por favor, deixe de ser complexada, você deve s...quer dizer, você é legal!
- Como você pode saber que sou legal? Desta forma parece que a gente se conhece faz tempo, nossa! Aliás, parece mesmo, de onde viria a sua liberdade para ranhetar com o meu jeito de ser? - interrogou Pin
- Pára de reclamar! Pois este também é o meu jeito de ser, sem paciência. Acho. Mas deixe pra lá. Estou tentando perguntar: você sabe o que estamos fazendo aqui? Sabe quem sou eu?
- Não! Eu ia tlhe perguntar a mesma coisa, já que parece que já nos conhecíamos bem antes do fim do mundo.
- Deuses! Fim do mundo! Não é à toa que perdi minha memória. O que você sabe sobre o fim do mundo, Pin?
- Ops, Pin, como é que sei o seu nome?
- Eu disse que já devíamos nos conhecer, Glu - Pin arriscou o nome. Serviu bem
- Acho que têm coisas que nosso coração sabe reconhecer melhor do que qualquer agrupamento de tecidos no mundo.
- Acredito que sim, Pin. Devemos ser amigas, acho que podemos nos ajudar a sair daqui. - afirmou Glu
- Ah, sim, já ia esquecendo de responder sobre o fim do mundo...Ocorreu após uma série de fenômenos naturais improváveis. Após um lindo dia de sol acompanhado de garoa, uma tempestade forte devastou toda a população então conhecida aqui.
- Foi horrível, estava em uma posição favorável ao operador de câmera que ganharia o próximo grande prêmio de cinematografia documental. Como você pode ver, Glu, aqueles prédios maciços à nossa frente estão inabitados. As primeiras pessoas a serem destruídas foram as que estavam nas ruas, seguido pelo restante do povo daqui. - contou Pin.
- Que horrível! Têm coisas que é melhor permanecer no esquecimento.
- Afinal é melhor se sentir ignorante, mas feliz, né, amiga?
- Creio que sim, Pin...amiga...pessoa que me suporta durante as últimas unidades de tempo.
- Mas, Pin, podemos deixar o passado de lado e pensar o que temos de fazer agora? Me parece que aquele agrupamento logo abaixo é um ótimo destino!
- Concordo, Glu.
A região observada era uniforme e alegre; forte energia emanava dali. O destino próximo oscilava, cintilava, irradiava e - se conseguissem escutar o som àquela grandíssima distância - saberiam que também emitia um canto marinho, semelhante ao de ondas do mar aterrizando nas areias de um terreno uniforme. Era o ambiente paradisíaco a que todas as gerações passadas procuravam encaminhar seus herdeiros: era o sucesso e a felicidade; certamente era para onde todos gostariam de ir: era o topo da pirâmide social capitalista; extremamente pequeno, porém capaz de abrigar todos os restritos sobreviventes daquele mundo- aparentemente- pós apocalíptico.
- Se nós soprarmos bem forte e nos apoiarmos, com um pouco de perseverança, poderemos chegar lá abaixo, Pin.
- Vai ser ótimo quando chegarmos!!! Enquanto isso, contamos com nossa amizade para superar os obstáculos. - empolgou-se Pin
- Pode ter certeza, nada nos derrubará.
As personalidade continuaram, possivelmente motivadas pela força da gravidade positiva, ou pelo local em que se conheceram inicialmente, ou pela probabilidade favorável impulsionada pelas forças de coerção social, ou pela maquete de lego em escala real que havia sido colocada ao seu lado.
Anos depois, chegaram ao lugar paradisíaco e se dispersaram. Momentos depois, Glu não conseguia mais encontrar Pin. Desesperada, sentia falta do primeiro local que lembrava, aquele espacinho onde havia conhecido - ou reconhecido - a companheira. Após a forte sensação da presença de ondas de calor, toda a multidão ao seu redor desapareceu. Glu conversava sozinha; intimamente, sabia que era em vão.
- Pin, estou desesperada! Por que não permanecemos lá? Já tínhamos concluído que, quanto menos soubéssemos, mais feliz estaríamos. Era melhor termos ficado paradas, sabendo pouco!
- Pin, acho que tornaremos a nos conhecer e a viver toda esta situação de novo. Agora compreendo tudo. Vidas passadas são mais do que uma doutrina para afagar nossas dúvidas existenciais; agora sei que elas são uma sina infeliz.
- Desculpe-me, Pin. Quem sabe, se meu primeiro passo houvesse sido diferente, estaríamos em outro lugar.
Glu e Pin são carismáticas gotas de água. Presas ao vidro que protege a janela de uma casa, avistam a maquete de lego que o filho mais novo do lar montou. Com as luzes apagadas, enxergam os prédios em tons escuros, decorados pelo pôster do último Harry Potter na parede atrás deles. As gotinhas, assim como muitas outras, fluem melhor e mais rapidamente em direção à região inferior da janela quando unidas; este é um conhecimento inato bastante intuitivo a toda matéria constituída de água. Mais abaixo da janela, encontram-se poças de dimensões admiráveis nas quais reflete a maior quantidade dos raios de sol após um temporal. Segmentos de fluxos de água, também apreendidos como fragmentos da cadeia produtiva que lhes garante a reprodução do ciclo, ou sina, são facilmente iludidos por tudo o que a maioria deseja, é grande, ou que emite brilho.
Quando as gotas estão na poça há tempo suficiente, cansam-se, debatendo-se cineticamente devido à superlotação e ao calor da multidão e do sol - cada vez mais intenso - e são capazes de perder a materialidade em meio às suas companhias. Antes que os últimos abraços cansados sejam compartilhados, as gotas desaparecem. Abraçam a morte com a maior felicidade do mundo e, como fantasmas, voam e assombram, na forma gasosa, os seres os quais compartilham setenta porcento de sua matéria constituinte.