Não queria mais se incomodar quando as outras pessoas se sentissem com autorização para criticar, destrutivamente, sua personalidade.
Era quieta, e subentenderam que ela não tinha comportamento determinado. Disseram que precisava ir atrás dos seus sonhos, pois "foi o que as pessoas da família fizeram".
Agiram como se ela fosse uma pessoa que não faz nada. Falarm como se a moça tivesse dinheiro suficiente para sonhar sem limites. Seus dois maiores sonhos foram ser aprovada na USP para o curso de Publicidade e Propaganda e morar fora da casa dos seus pais.
Depois, as suas próximas vontades foram barradas por questões financeiras, ou por falta de perfil: nem sempre o que você quer é o mesmo que as pessoas decisoras procuram. A vida adulta chegou e impôs seus limites naturais.
Mesmo assim, conquistou coisas das quais não se vangloriou e que suas algumas pessoas da família mal sabem que conquistou, devido ao seu silêncio.
O motivo? Não simpatizava com o comportamento dela, que reforça tudo o que rendia histórias interessantes nela e no seu filho - todas decorrentes de oportunidades que a maioria da população carecem - muito provavelmente por insegurança.
Estava em paz consigo mesma. Orgulhava-se de ter sido aprovada na faculdade, de ter conseguido pagar seus aluguéis durante a graduação e de ter assumido um cargo de gestão aos 23 anos.
Mas orgulhava-se mais da capacidade de ouvir aos outros pacientemente e com empatia.
Orgulhava-se me também da humildade. Tinha consciência de que não era a melhor pessoa em muitas ações e atitudes.
Não era a melhor profissional de marketing digital: não era a melhor SEO, a melhor redatora, a melhor planejadora, muito menos a melhor mídia.
Não era a melhor filha, a melhor neta, a melhor amiga.
E tudo bem. Enquanto permanecia receosa de não ser boa o suficiente, permitia-se aprender e ouvir mais.
Mas, caro mundo, muito lhe cansava ouvir críticas ao seu tom de voz baixo, aos seus poucos comentários; cansava, também, conversar com pessoas que adoravam projetar as suas próprias vontades nela, talvez por pensarem que ela não tinha as suas próprias, já que não apreciava comunica-las para qualquer pessoa.
Ao termos empatia, entendemos, pelo menos um pouco, as motivações de outrem e, então, conseguimos agregar a compreensão do outro ao nosso universo particular, finalmente ampliando a nossa própria complexidade.