É uma noite de quinta-feira chuvosa, levemente fria. O tecido do moletom aconchegava. Havia terminado o expediente mais tarde quando li um e-mail sobre a mudança no horário da aula de mindfulness; por começar uma hora depois, ia conseguir participar.
Hoje sei a importância de práticas desse tipo, tenho consciência de que é normal a mente divagar; o mais importante é trazê-la de volta para o foco de maneira carinhosa, compassiva. Afinal ninguém pode cuidar de nós melhor do que nós mesmas.
A professora anunciou que iríamos focar nos sons ao redor hoje. Minha primeira reação foi pensar que havia muitos ruídos desagradáveis - como os sons de escapamento de moto que ressoam quando me deito para dormir, os quais já haviam me levado a procurar empresas de janelas anti-ruídos -, mas me esforcei para manter a curiosidade e a abertura. Que tal enfrentar um dos meus inimigos do sono? Conhecer os ruídos mais a fundo?
Iniciamos focando no relaxamento do corpo. Senti que me entreguei e os músculos realmente relaxaram. Ao focar nos sons, no início, minha mente queria saber quanto tempo faltava para acabar. Há quanto tempo estávamos na prática? Abri os olhos e são 21h18...a professora também está com os olhos fechados; eu já fui melhor nisso...vamos continuar, falta pouco.
Ao levar a mente para focar novamente nos sons ao redor, novamente com os olhos fechados, minha mente foi além da privação da visão. Senti que a audição foi se ampliando, como se os sons estivessem em mim e ao meu redor. O peso dos olhos foi abandonado e comecei a ver um tom avermelhado e um pouco esbranquiçado. Eu sentia que tinha controle total do que estava pensando. Apreciei a sensação e, enquanto focava nos sons ao redor, a visão ia se tornando mais leve e dominada pelas cores. O corpo ficou leve leve leve... Senti uma profunda gratidão por este momento. Lembrei que tal tipo de experiência já havia acontecido comigo anteriormente, mas a cor havia sido azul. Além disso, tinha sido em uma época que consistentemente fazia práticas de meditação todo dia pela manhã.
Pensei o que será que vai acontecer se eu focar na visão? Será que as cores vão me dominar mais ainda? E, então, a visão foi ficando mais esbranquiçada. Percebi que talvez eu estivesse movimentando os olhos - revirando, será?. Assustada, decidi pausar o meu experimento. Profundamente feliz por ter vivenciado tal experiência.
Minha experiência fugia do mindfulness, da atenção plena? Era positiva ou negativa? Será que as colegas, que eu não conhecia, me receberiam bem se eu compartilhasse tal experiência na roda de conversa? Não sei as respostas porque optei por levar essa leve lembrança apenas para cá.