domingo, 20 de setembro de 2015

O futuro nos assusta

Súbito, em uma indecisão sobre estadia quando fosse viajar a trabalho, sua mente ficou muito mais borrada e confusa do que deveria. Consumiu a cota mensal de choro, sim, senhores. Faz parte. O conceito estereotipado de família não cabia à dela. Sabia disso. Ocorre que hoje a discussão interna e os pensamentos foram mais além. Assumiu que todos necessitam de uma família e sentem falta. Inclusive ela. Inclusive uma pessoa próxima que havia se afastado de seus familiares. Ele, desertor de sua família, havia adotado outras pessoas como suas queridas. Mesmo que dissesse que não se importava com a família, preocupava-se com as pessoas que pertenciam a esse grupo novo.
Seu chão se desfez com essa descoberta: a família era fundamental a essa pessoa; não sua própria, mas a que fora adotada. Todos precisavam de uma família.
Muitas pessoas não podiam  ser classificadas como família, apesar do parentesco sanguíneo. Se, na cidade onde morava, havia familiares que não eram família, imagina em outro Estado?! Ocorre que o senso comum lhe dizia que essas pessoas podiam ser consideradas.
Além disso, encontrou-se pensando sobre os próximos meses e anos: com quem moraria? Seu irmão estaria próximo? Seu parceiro gostaria de morar junto? E você? Haveria algum parceiro? E se seus amigos próximos se mudassem? Os questionamentos sobre sua profissão e a graduação que gostaria de estudar também tomaram conta dela. Este sonho se afastava, cada vez mais, à medida em que as responsabilidades de adulto eram fortalecidas.
Especialmente hoje, gostaria de conversar com alguém querido sobre essas dificuldades e medos. Não havia ninguém perto. Apesar de ter amizade com uma vizinha, não sentia liberdade, proximidade e intimidade suficientes para perturbá-la com este assunto. Não queria aceitar o convite de um vizinho para assistir a um filme. Sentia uma vontade de permanecer, o máximo de tempo possível, imóvel. Não ansiava por sair, divertir-se ou aproveitar a alienação das boates, aquela batida acolhedora e o som que superaria a altura de seus pensamentos.
De alguma maneira, o tempo hoje a lembrava os dias no interior, quando a temperatura muito quente diminuía exponencialmente a vontade dos seus parentes saírem de casa, e cabia a ela caminhar até o mercado mais próximo para comprar um pão com sorvete e caminhar com o cachorrinho. Nesses tempos, os maiores problemas eram as dificuldades de sua mãe e a maneira como ela as tornava mais intensas. Caso precisasse, alguém a levaria ao hospital para receber um tratamento à gripe; haveria companhia para o almoço, alguém que se preocupasse com ela caso não se sentisse capaz, e uma razão para gastar com comidas gostosas diferente do nervosismo da solidão.
Aqui também era sua casa. O calor e o ambiente agradável, que lhe remetiam ao conforto do antigo lar e às pessoas que se importavam com ela, deveriam ser interpretados como um sinal de que estava em casa.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Vias novas

Na quinta-feira da semana passada, ela recebera o certificado por escrito, em três vias, a ser autenticado por três assinaturas, de que sua vida havia mudado intensamente naquele ano. A tranquilidade e a paz do interior já não pertenciam à sua agenda (nem uma vez ao mês). Seu lar havia se mudado para a rua abaixo, trazendo-lhe o conforto exclusivo da sua própria companhia. A inserção de uma disciplina de outra área de estudo a motivava, ao passo em que a graduação principal estava paulatinamente mais fatigada. Havia aprendido a importância de praticar atividades físicas; o yoga e a meditação eram as maiores ferramentas para o equilíbrio. O repertório musicalmente apreciado se ampliava e diferentes ritmos de dança constavam na lista de atividades de que gostava. Estava aprendendo a confiar, em si mesma e nos outros, e a valorizar a importância desta qualidade. Seu apreço pela análise de comportamentos ganhava força.

A rescisão impressa daquela etapa tratava-se do impulso de que necessitava, já há alguns meses, para renovar ou reformular por completo sua segunda metade da segunda década deste século. Nas palavras da cortês mentora, era esperado que ela aproveitasse este momento desagradável para encontrar e explorar algo de que gostasse mais. Impressionantemente, o acaso a ajudou na última semana; várias pessoas quiseram conhecê-la, outras a indicaram e depositaram nela fichas de grande valor de confiança.

Agora, como também em outras fases, o medo a paralisava e provocava intensos e breves momentos de afluência de fluidos no rosto. Além disso, estava perdendo a confiança na sua própria capacidade de realizar bem a tarefa que lhe fora confiada. Por ora, era fundamental mergulhar e focar em cada capítulo do estudo separadamente. No final, encontraria uma forma de apresentar os resultados consonante a uma estética agradável e de fácil entendimento. Além disso, acreditava que seria capaz de explicar o que aprender e ganhar a confiança de quem a ajudava neste momento.

Acredita em ti.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A melhor pizza de morango com chocolate

Cena de "O Fabuloso Mistério de Amelie Poulan"

Acho que não sabemos ao certo como isso começou. Quando algo realmente é especial, é que percebemos a dificuldade de descrever e transmitir a sensação de um momento para outrem. Ademais, é gostoso guardar aquilo o que é precioso junto de mim, em vez de espalhá-lo aos sete ventos. Aliás, de onde é que vem esta expressão? No momento, consigo pensar em oito pontos cardeais, oito ventos, portanto.

Conversamos. Às vezes, o assunto escapava e ambos faziam o possível para resgatá-lo ou criar outro. Comemos. Contive meu sorriso ao ver que você estava, controlada e pacientemente, esperando eu terminar meu pedaço de rúcula com tomate seco para comer a deliciosa sobremesa de morango com chocolate comigo. Você se lambuzou, derrubou um pouco de chocolate, sujou as mãos enquanto eu não havia, até então, encontrado dificuldade para comer o meu pedaço. Estava terminando quando você elogiou esse comportamento, balançando meu equilíbrio para comer aquele pedaço de pizza com as mãos. Era como se quisesse que eu me sujasse um pouco, assim você não seria o único. E não é que funcionou? Pouco tempo depois, perdi o controle de uma mordida e comecei a rir. Você observava meticulosamente “foi meu olhar gordo”, enquanto eu ria e continuava tentando dar umas mordidas. Lambuzei-me um bocado: as mãos ficaram sujas; os lábios, grudentos, e uma gotinha de chocolate caiu na minha calça jeans clara. Imediatamente, pensei tão alto que quase pronunciei o que passava pela minha mente “Mais tarde, vou gostar dessa manchinha. Quando for limpá-la, vou lembrar desse momento tão engraçado e dessa pizza tão boa”

Tratava-se de uma pizza de morango com chocolate deliciosa, a melhor que já comi. É verdade, caro leitor, que não sei se já havia me dado a oportunidade de saborear uma sobremesa como essa antes.

Você quis ir embora daquele lugar. É verdade que já tínhamos encerrado o propósito de ir até lá, então não me opus. Ao chegar à porta, deparamo-nos com uma chuva e trocamos algumas palavras a respeito do que fazer. Claramente, você não queria voltar para dentro. Havia uma marquise na saída, então dava para esperar ali, até que chuva diminuísse. Internamente, agradeci a presença daquele tempo ruim para caminhar, já que nos faria ficar mais um tempinho juntos, sem alguma comida como distração. Ocorre que ter conversado, sujado as mãos e encontrado pontos de vista em comum lá dentro me tornou mais à vontade para estar com você. Enquanto me abraçava, estava 100% ali, sendo feliz com tranquilidade, sem medos.

Houve um momento em que lembrei de uma música a que se encaixava muito bem ao que se passava; novamente, o pensamento soou bastante alto em minha cabeça. Eu tinha uma trilha sonora para aquela cena em momento real e quase não consegui escutar o que você falava. Novamente, encontrei alguma desculpa para sorrir, rir e aliviar o foco do pensamento e não pronunciá-lo, no caso, a música que dominava minha mente. Já pensou se eu começasse a cantar? 

Não recebi críticas de maneira alguma, nem comentários desagradáveis ao meu jeito de ser. Pelo contrário, comentamos sobre como era inesperadamente bacana e acima das expectativas conhecer alguém assim. Foi uma das poucas vezes que senti que ambas as partes estavam realmente felizes, contentes, verdadeiramente querendo estar ali.

Continuamos nossa caminhada, paramos algumas vezes, sob a desculpa de que a chuva estava mais forte. Guardei minhas mãos em seu moletom e você descansou o seu queixo em meu nariz.

Sei, apenas, que desejo ter calma e ser feliz; este foi o maior aprendizado dos meus últimos meses, e também o que tem se tornado a grande meta na minha rotina. Esta sensação inclui a tal eudaimonia, da qual falo há uns bons seis anos. Ainda falta bastante para poder dizer que minha vida é eudaimônica; na verdade, sinto que estou traçando o caminho e me moldando para ser capaz de conquistá-la quando estiver pronta.

O poder das palavras

Ora, essa paixão pessoal de entrega, de total devotamento a uma tarefa, a uma missão é o que faz das letras verdadeiras um holocausto e não uma vaidade. Raramente ou mesmo nunca inteiramente puras, sem dúvida. Mas que, mesmo impuras, pelos temas ou pela visão mundana, guardam em si, pelo toque de beleza autêntica que contenham, uma pureza invisível, como expressão consciente e como reflexo inconsciente de uma Fonte, que transcende todas as fontes terrenas” (Tristão de Athayde, sobre Ferreira Gullar)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Decidi ser feliz.

Simples assim ou não tão simples, há momentos em que algo na vida nos força a tomar a decisão de mudar o rumo de nossos pensamentos e atitudes. Não importa a grandeza da gota d'água, mas a intensidade pela qual é apreendida. Passei por alguns enormes sustos nesse ano - imagino quais potencialmente são os próximos de 2015 e temo bastante caso o padrão atual seja mantido -, principalmente nas últimas semanas, que me fizeram pensar em consequências a longo e, também, curto prazo.

Aliás, esse último período foi tão movimentado que parece que muito mais tempo se passou. Sinto como se nem meu inconsciente fosse capaz de se lembrar de tudo; muito menos eu me recordo, nem meus amigos próximos.

Créditos
Simplificando o que aconteceu, algo me fez olhar para as pessoas que trabalham comigo e têm 10 a 20 anos a mais do que eu. Observei-os e pensei como seria a minha vida se eu tivesse o que eles têm na fase da vida deles (como altíssimas responsabilidades nos negócios e filhos a caminho). Com certeza, eles eram senhores das responsabilidades que eu também tenho hoje. Possivelmente, eles sentem mais paz com relação a isso, mas por quê? Por que eu não poderia ser assim? Se fosse direcionada a continuar minha vida como é hoje, até quando estaria revoltada? Até quando eu procuraria a felicidade sendo absolutamente cética de que poderia ser feliz profissional e academicamente hoje? E se eu jazesse? E se eu tivesse 15 anos a mais? E se eu fosse mais confiante? E se eu construísse a felicidade à minha maneira todos os dias? E se eu acreditasse que minha vida como estava era eudaimônica em potencial? E se realmente fosse assim?

Ademais, forcei-me a abandonar mais alguns rótulos e a procurar desvendar e analisar a história pessoal de todos os que conheço. Fazia isso sempre que pensava em criticar algum comportamento alheio (de maneira positiva ou negativa), mas agora tronei tal análise uma regra para todos com que converso. É por demais interessante e nos ajuda a não necessitar do uso de preconceitos.

Preciso escrever mais sobre esta tal decisão feliz. É uma atitude de abandonar, ao menos em pensamento, tudo aquilo que é prejudicial ao bem estar.
Aparte, a parte boa é que realmente estou mais leve, satisfeita, livre, feliz e menos ansiosa.

A Decisão
A partir do momento em que outorguei ser feliz e aceitar as circunstâncias e condições da minha vida, assumi o comportamento de procurar os aspectos bons, que rendem histórias bacanas para serem contadas e de que, de alguma maneira, posso ter orgulho de executar cotidianamente.

Penso que, até então, meu costume era o da revolta pela revolta (não consigo lembrar ao certo agora, porém existe um nome bonito para isso). Simplificadamente, não me orgulhava de nada, sentia-me angustiada com facilidade e queria uma pausa para tudo o mais cedo possível: estava por um fio. Ocorre que a melhor pausa foi um rompimento de fato com aquele comportamento desfavorável. Pausei a angústia e me abri ao contentamento frequente.

domingo, 14 de junho de 2015

Chô, sensibilidade!
Não sei por que venho me sentindo muito sensível ultimamente. É como se vivesse uma constante tensão pré-menstrual, mas também como se estivesse prestes a transbordar um copo acumulado de feridas. Tudo se aglutinou e desejava várias renovações. Infelizmente, quanto mais as desejava, mais se fixava ao que trazia descontentamento e mais a sensibilizava e entristecia. 

domingo, 17 de maio de 2015

Nada é. Tudo está.

Faz tempo que não escrevo, mas sinto que este seria um recurso honesto em prol de me manter em equilíbrio na semana seguinte.

O medo de, cada vez mais, prender-se a uma prática de missão não satisfatória e não eudaimônica vinha se tornando maior. Aliado a isso sabia que, quanto mais temesse, pior ficava; fosse porque sentir medo torna a própria sensação de medo mais intensa e, por consequência, pior; ou porque seu próprio pensamento a atrasava e atuava como uma barreira para as mudanças boas acontecerem. Especialmente no que concerne ao segundo mecanismo de piora, sabia que era necessário desapegar. 

Do grafiteiro Banksy
Há pouco tempo, havia entrado em contato com a ideia de desapego como uma percepção sobre a vida. Quando se diz que alguma coisa nos pertence ou é de determinada maneira, criamos mecanismos que geram segurança e confiança com relação ao estado das coisas. Assim, dizemos frases como “minha casa é bonita”, “Fulano é meu amigo”, e por aí continua... e nos sentimos bem! Como consequência, apegamo-nos ao nosso lar que está bonito e ao Fulano que está nosso amigo (por exemplo).

Então quando o objeto de um apego muda seu estado simplesmente porque ele é submetido a circunstâncias de mudança ou porque ele é um ser vivo com o poder de querer se modificar, ocorre uma decepção enorme. Além disso, quanto mais o apego acontece, sinto que mais há dificuldade para os movimentos fluírem.

É bastante comum perceber que, quando “desistimos” de algo, aquilo começa a funcionar ou se torna verdade. Penso que isso acontece porque o desapego permite que as circunstâncias se disponham bem.
Hoje estou sem internet, não pude colocar uma tarefa em dia, estou incapaz de ouvir músicas diferentes e que me acalmem ou anestesiem; também não consegui passear com alguém. Passei o dia com poucos recursos e com o excesso da minha própria companhia. Espero que não me aborreça e prossiga a semana como se tivesse tido o melhor dos finais de semana. O que é que faz a diferença?

domingo, 19 de abril de 2015

Novos tempos

Não sabia por onde começar, mas sentia que aquela fase já havia adoecido e estava lhe deixando uma tremenda inflamação como sequela. Talvez não houvesse mais o que fazer para curar aquela etapa, apenas assumir que ela havia chegado a um fim saudável, no qual cada um segue o seu caminho com tranquilidade.

Infelizmente, não era assim que pensava. Cada vez mais, pensava que ela mesma era culpada por todos os atritos, e queria apagar as brigas passadas. Tinha dúvida: quando assumia que era hora de procurar outro começo, uma pergunta continuava latejando em sua cabeça: até que ponto ele havia se magoado? O que realmente sentia? Por que gostava de continuar conversando com ela? Mas por que gostava de ignorá-la?

Era tempo de desapegar e mergulhar em novos começos. Talvez, devesse ter abraçado os tempos de briga. Com certeza, era a época mais fácil para criar aversão e se distanciar realmente.

Créditos

domingo, 29 de março de 2015

Sensações

Mudanças. Separou e guardou tudo à maneira que lhe parecia mais eficiente e adequada. As semanas  anteriores poderiam ser sumarizadas a um processo de purificação, desapego e auto conhecimento. Desprendeu-se de inúmeras sacolas de objetos das fases de outrora, jogou vários papeis à lixeira e doou a maioria de seus brinquedos. Nos últimos dias de preparação para a casa nova, descobriu e assumiu-se como acumuladora - aquele perfil que não gosta de jogar fora uma simples anotação ou objeto porque pensa que aquilo pode ser útil algum dia, ou que aquilo teria alguma forma de valor. Passado este momento de conscientização e reflexão, decidiu que, ao invés de guardar aquilo o que poderia ser útil, tomaria como regra padrão jogar o objeto fora  e, além disso, faria uma faxina consciente duas vezes ao ano.
Dia do caminhão. Cansou-se, porém ainda tinha um bocado de disposição, quando chegou na casa nova, a qual era alimentada pela perspectiva de dormir em um lar mais confortável. Quando se descobriu como acumuladora, percebeu, também, que não havia feito o planejamento devido para a mudança: ainda tinha muito mais objetos do que necessitava. Outrem poderia dizer que não se tratava de "planejamento" de fato, porém apreciava encarar a questão sob esta interpretação. Dessa forma, começou a pensar, ainda na hora do almoço com a família, em qual caixa abriria primeiro, por que motivo, e como isso influenciaria (dificultando ou facilitando) a abertura das outras caixas.
Para que tanto rodeio, mulher? Limparia o banheiro, colocaria os shampoos, colocaria os lençois e separia as roupas de alguma caixa. Se não conseguisse, poderia usar uma blusinha com calça de pano, já que esta ficava em uma gaveta com outras roupas do mesmo tecido. Se não conseguisse resgatar um jeans, não haveria problema e não faria diferença alguma. (Por que não costumava pensar assim sempre?)
Caixas. Olhou ao redor e questionou-se o motivo de ainda haver tantas caixas ao seu redor, visto que o necessário para ter uma noite confortável já havia sido desempacotado. Por que temos tantas coisas? Por que pensamos que precisamos de tanto? 
Dificuldades que aproximam. Outro destaque do dia era o comportamento compreensivo e colaborador de todos os ex habitantes daquela mesma residência conturbada. Em um dia comum, todos seriam bastante individualistas, entretanto, nesse dia de mudanças (em sentido amplo), vimos pessoas inusitadas oferecerem auxílio e empatia. 

Quanto é necessário para unir os membros de uma família?

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Let it be

À luz de um agradável e suave sol matinal - as cortinas para o palco de um dia deveras caloroso -, uma conversa a respeito preferencias temporais surgiu entre duas nobres almas.

- Ah, eu gosto de calor, nem que seja por que sou muito friorenta, me sinto mal no frio. De que tipo de tempo você gosta?
- Olha, eu sou a favor, apenas, de não reclamar.

Hoje, a moça gostaria que mais pessoas estivessem presentes para autenticar a veridicidade de tal conversa. A fala do moço seria a materialização verbal de um tapa na face das pessoas que têm o costume de anunciar aos sete ventos sua insatisfação climática. Ademais, o discurso dele destacava inclinações que ela também compartilhava.

Além do ato de reclamar sobre o tempo ser um catalisador da redução da paciência alheia, não é capaz de mudar a temperatura (ou o que nos é incômodo) no tempo em que vivemos. Também, ao falar sobre determinado assunto, sempre concedemos-lhe ênfase: sentimos, alegramo-nos e sofremos com maior intensidade. Portanto, caso fôssemos pessoas completamente racionais, deixaríamos de reclamar em prol de reduzir a força dos fatos desagradáveis.

A intenção do presente ato de escrita, contudo, era destacar que a frase dele sintetizava a maneira como gostaria de se comportar (ao menos) nos próximos dias. A procura e aceitação da paz interior pareciam-na ser catalisadas pela ausência de reclamações e maior aceitação dos problemas e contratempos que surgiam. Afinal, reclamações vulgares não mudam a configuração vigente.

Do fotógrafo Murad Osmann