sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Antes e depois da medicação: 2 meses

Fui resistente a tomar medicação psiquiátrica muitas vezes, mas desde o ano passado me permiti tentar. Não tive sucesso até que, neste ano, sob a justificativa de tratar a migrânea vestibular, concordei em tentar outra medicação. Após uns 3 dias de medicação eu senti um calor, um conforto, uma paz no coração que não me lembro de ter sentido antes na vida. "Para você ter sentido esse benefício tão rápido, é porque a sua serotonina estava muito baixa", me disse a Carol.

Em algum momento, vou parar a medicação. É fundamental que eu entenda as mudanças de comportamento que estou tendo nesse período, para que consiga perdurá-las sem a medicação.

De uma forma geral, atualmente eu me sinto com mais clareza e força para pensar. Sinto que o meu lado racional não fica imerso em emoções que me impedem de agir conforme a razão. Eu penso, sinto emoções negativas e preocupações, mas consigo agir conforme a minha decisão e deixar o sentimento ir embora. Parece aquela técnica de mindfulness "oi, sentimento, obrigada, sentimento, tchau, sentimento". - com a diferença de que eu conheço a técnica há quase 10 anos, mas só agora a vivencio; e olha que nem preciso pensar na frase para conseguir agir assim, ela simplesmente acontece.

Sinto que o trabalho que venho fazendo há anos na terapia agora tem a força necessária para ser colocado em prática, justamente porque minhas emoções não estão me sabotando. Meu sistema nervoso está imerso em outros neurotransmissores e tenho a oportunidade de criar novos padrões mentais.

Alguns momentos me marcaram quando percebi que tive um pensamento equilibrado, que não aconteceria se eu estivesse imersa nos neurotransmissores do passado:

1. Trabalhei alguns dias até mais tarde para organizar os preparativos para um teste de usabilidade. Em uma sexta-feira, tive dificuldade para acordar, não tinha reuniões pela manhã, somente a daily e a aula de inglês. Comecei a amadurecer a ideia de ir à academia no horário do trabalho. Tomei a coragem de não somente ir à academia no horário do trabalho, mas avisar meus colegas sobre essa decisão. Era o mais certo a se fazer e eu tinha a oportunidade de dar o exemplo: era importante compensar as horas trabalhadas. Se fosse no passado, o medo de ser julgada por não ter trabalhado teria me impedido de tomar essa decisão, ou talvez eu teria ido à academia, mas as emoções ficariam me perturbando e eu não conseguiria ter aproveitado tanto o momento. Este foi o dia em que senti um calor no peito pela primeira vez por ter me priorizado.

2. Comecei a fazer os exercícios da fisioterapia de reabilitação vestibular. No primeiro dia fazendo a atividade em casa, percebi que eu enxergava uma mancha escura quando mexia a cabeça. Fiquei preocupada, pensei em pesquisar no Google, mas decidi que não iria fazer isso, porque certamente ia aparecer alguma doença preocupante e a ansiedade iria aumentar. Decidi esperar e relatar para a fisioterapeuta na sessão seguinte. Controlei a vontade e não pesquisei até hoje (e contando). Na sessão, ela explicou que o sintoma poderia ser pela fraqueza muscular quando um dos olhos não acompanhava o movimento e o outro sim. Disse que ficaríamos acompanhando e poderia me recomendar passar em consulta oftalmológica depois, caso continuasse. Ela me perguntou se eu percebia dupla visão e disse que não. Talvez isso aconteça em alguns movimentos, mas estou em paz. Acho que descobri uma habilidade nova.

3. Antes das férias, havia tirado o day-off com a intenção de arrumar as malas. A bateria do celular abaixou, decidi jantar com o Gui na av. Paulista e chegamos tarde em casa. Não consegui fazer as unhas, as malas não estavam prontas, nem a auto-irrigação das plantas. Decidi que não iria me estressar fazendo as malas, porque eu já havia escrito quais itens eram essenciais (caros) e não poderia me esquecer, como o alinhador, o choquinho da fisioterapia e a câmera fotográfica. Eu costumava ficar hiper-vigilante para preparar as malas porque não queria me esquecer de nada, queria ter tudo sob controle. Fazia listas, anotava enquanto preparava a mala, checava novamente, e ficava ruminando se havia me esquecido de algo. Mas essa preocupação excessiva fazia com que eu não entrasse em um estado de relaxamento antes da viagem. Conversei comigo mesma e expus o seguinte pensamento para o Gui (e especialmente para mim mesma): tá tudo bem esquecer algumas coisas. Se precisar, eu posso comprar na viagem: calcinhas, chinelo, shampoo e até biquini. Dá para resolver a maior parte das coisas que posso esquecer sem grandes prejuízos. E esse será o meu mantra organizando a mala antes das próximas viagens.

4. Quanto tenho um problema ou desafio, consigo analisa-lo e pensar em uma solução sem ficar presa aos desafios decorrentes do desafio principal, sem ruminar. Na viagem, soube que tinha bicicleta para emprestar no prédio. Não oferecia capacete ou cadeado e eu não sabia se tinha ciclofaixa no caminho todo. Fui para a praia e comecei a pesquisa no chat GPT. Descobri que tinha ciclofaixa até a Ponta do Seixas. Prestei atenção seletiva ao meu redor e vi uma moça deitada na areia ao lado de uma bike - pensei comigo mesma "dá para descansar na areia mesmo sem ter o cadeado para a bike. Passou algum tempo e vi outra moça pedalando na areia próxima ao mar. "Será que pode (pelas leis de trânsito) pedalar na areia?". Novamente o GPT me ajudou e disse que não havia restrições para isso. Senti o sol ardendo e soube que não era um bom momento para pedalar. Olhei o índice UV por horários e decidi que sairia por volta das 14h, com o sol um pouco menos forte. Na viagem de uber, me informei sobre a ciclofaixa no trecho que estávamos. No meio do trajeto, me cansei bastante, mas encontrei também um grupo de vôlei da juventude patrocinado pelo comitê olímpico. Sentei na arquibancada; vidrada, assisti ao jogo da Bahia e Goiás. Cogitei terminar meu trajeto por ali, afinal era uma atração divertida, e estava com medo de voltar no escuro. Fiz a contas, calculei que dava tempo de ir até o final e voltar com um restinho de luz no ritmo que eu estava pedalando. Fui, tive dificuldade para encontrar o destino final, tomei uma fechada de um carro. A dificuldade para encontrar o destino final teria me feito chorar anteriormente. E a fechada teria me abalado de forma definitiva. Eu teria chorado e sentido as pálpebras pesadas, inchadas. Mas, nesse dia, eu agradeci pela proteção, pensei que poderia ter quebrado uma perna, mas não teria morrido. Me superei e cheguei até o final. Quando cheguei no flat, se fosse no passo, eu teria focado no negativo e repetido várias vezes os problemas que enfrentei ao conversar com o Gui. Mas olhei para o cenário do dia todo, com suas belezas, desafios e superações - e ocasionalmente mencionei a fechada.