Encontrei-me
pensando que não quero morar na cidade em que vivo hoje, não estou satisfeita
com o meu emprego, e mais, sinto-me deveras mal ao longo do dia e quando saio
do escritório, momento em que talvez devesse sentir alívio. Isto me faz pensar
que talvez o problema esteja em mim, na minha não adequação pessoal à área profissional
escolhida, nem à cidade abarrotada de pessoas. Pessoas nos ônibus, pessoas que impedem
o fechamento dos trens. Pessoas que, como eu, descem do transporte público e
caminham alguns quarteirões quando ele fica estagnado pela chuva que acomete a
cidade cinza com tanta frequência.
Não
quero reclamar, não devo reclamar, não posso reclamar, mas hoje foi o dia mais
difícil do ano para obedecer a este mantra.
Tinha
pendências na faculdade e quis cumpri-las apesar de ter decidido não ir à aula.
À tentativa de manter a discrição, as lágrimas se despediram dos meus olhos da
estação brigadeiro ao final da linha amarela. E também no ônibus. Às vezes, questiono
quantas pessoas choram no transporte público no cotidiano. Como a maioria das dos
cidadãos obedece a uma norma social de respeito à privacidade, não olha para
quem compartilha aquele espaço aperto.
Quando
olhares se cruzam, não é educado observar fixamente, mesmo que esteja
paquerando o outro. Certa vez, li que estar muito próximo de alguém representa
uma ameaça, um tipo de violência. Como somos forçados a manter uma distância
agressivamente próxima dos outros no transporte público, permanecemos tensos,
alertas e desconfortáveis por invadir a intimidade de todos. Sendo assim, mirar
a expressão facial dos outros e descobrir se há pessoas chorando não é
adequado.
Cheguei
à faculdade. Avistei meu amigo e fiz o máximo de esforço para não chorar de
novo. Cumprimentei-o normalmente. Ele, então, perguntou “Você está bem?”. Nos
momentos em que nos sentimos mais triturados do que farinha de trigo branco,
esta simples pergunta é capaz de trazer todo o mal-estar indesejado que
tentamos afastar da consciência.

Abracei-o
e derramei o pranto que me perseguia há alguns dias. Eu afirmava que não queria
chorar e lhe pedia desculpas. Internamente, estava muito grata pela presença
daquele ombro amigo, uma das motivações para continuar vivendo na selva de
pedra. Acalmei a voz e enunciei os fatores que faziam me sentir mal, incluindo dor nos ombros e no
estômago. Ele disse para eu fazer algo de que gostasse, assistir a um filme,
descansar e tomar um chocolate quente. Em outras palavras, não havia consolo
para o que eu sentia. À falta de uma argumentação com fatores que fariam me
sentir melhor, o apelo foi emocional. Para que eu não vivesse o sofrimento de
maneira tão intensa, deveria procurar sensações agradáveis e alienantes.
Isto me
recorda a última aula que tive sobre planejamento. Grande estudiosa do
comportamento humano, a professora mencionou que é extremamente compreensível e
digno que as novelas façam tanto sucesso em um país em desenvolvimento e em
crise como o Brasil. Alguma hora do dia, os espectadores precisam se dar ao direito
de ter conforto, já que não o encontram no cotidiano da vida real.
Amanhã
de manhã, quando acordar, o rosto inchado não deixará esquecer como me sinto hoje.
Ainda é terça-feira. Imagine o final da semana...





