domingo, 13 de maio de 2018

Quantas vezes você já pensou que a vida não faz sentido? E que não há razão em viver?

Um vale mais longo do que o esperado

Há quase três anos, estamos em um relacionamento amoroso frutífero. Assim como nas outras facetas da vida, em nossa relação, teve altos e baixos; em uma analogia com a propagação de uma onda, houve cristas e vales.

Eu, ou qualquer outra pessoa em um relacionamento de longa duração, estaria mentindo se afirmasse que tudo foi sempre ótimo entre nós. Descrevendo desta maneira, quem me lê pode pensar que houve períodos de discussões, de brigas, de falta de respeito...Contudo nada disso ocorreu. As discussões que se deram foram pontuais e não necessariamente estiveram ligadas a um momento ruim do namoro; a título de nota de rodapé, declaro crer que desentendimentos e discussões fortalecem os relacionamentos humanos.

Ocorre que, em alguns vales, senti que você estava mais apático, distante, desanimado na minha presença. Em outro, identifiquei que você estava ainda mais distante: gestos simples, como espontaneamente segurar a minha mão ou me dar um beijo de boa noite não eram usuais; o desânimo dominava-te ainda mais e raramente o via sorrir. Sendo você alguém que não fala sobre sentimentos, tornou-se deveras difícil notar se havia um problema entre nós, se faltava sentimento entre você e mim, ou se havia um transtorno em você, quer dizer, entre você e o restante do mundo.

Neste último vale, demorou para eu imaginar que talvez você estivesse passando por um período ruim consigo próprio. Minha reação imediata (que durou algumas pungentes semanas) foi pensar que não gostava mais de mim. Naturalmente, não sei o que se passa em sua mente e, ainda hoje, não conheço quais são as motivações para o algo estranho que há entre nós.

Se o comportamento espelho nos dominou, provavelmente você pensou o mesmo de mim algumas vezes; possivelmente, teve a mesma impressão que eu nas últimas semanas. Tenho certeza de que, para você, nós tivemos cristas e vales; primeiro, porque conversamos sobre isto uma vez; segundo, pois tenho consciência de que eu vivi situações difíceis comigo mesma, o que certamente sensibilizou o nosso relacionamento nos momentos em que eu estava mal. 

Aqui, uma das diferenças entre nós a qual se torna evidente é que eu procurei demonstrar como estava me sentindo em todas as ocasiões difíceis; além disso, certifiquei-me de que você compreendia que não era a razão da ansiedade patológica que me assolava. Nos dias atuais, ainda não sei qual é o motivo da sua estranheza. Por ora, aguardo o início de uma nova crista.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A magia do Teatro Municipal

Sábado, 27 de janeiro de 2018

Ela compareceu ao primeiro evento o qual provocou uma imensa e positiva surpresa no ano.


A espera

Passaram duas horas e 20 minutos na fila: ela, seu namorado e duas amigas, antes de conseguirem ingressar no teatro. Rumo ao final da aglomeração, avistou um colega do seu antigo trabalho. 

Sempre sorridente, ele parecia não ter envelhecido desde os últimos dois anos - contrariamente à moça, como suas olheiras profundas evidenciavam. Era um rapaz simpático, curioso - fosse por natureza pessoal, ou hábito profissional, adquirido após cinco anos de trabalho em instituto de pesquisa. Ela havia sido assim também: manifestava curiosidade e interesse pelas minuciosidades, sorria e buscava entender os sentimentos de todos, como se estivesse entrevistando qualquer um que falasse com ela.

Talvez motivada pela demasia de sentimentos cinzentos, a jovem não procurava entender as emoções dos outros em profundidade, afinal sequer sabia lidar com as suas próprias. Entretanto, sorriu, agradeceu por estar com a maquiagem bem feita e uma roupa bonita: estava ótima por fora e, consequentemente, por dentro. A conversa durou pouco tempo e arrependeu-se apenas de não ter mandado um abraço à sua antiga chefe.

As costas doeram, assim como os pés. O sol raiou mais forte do que imaginaram. Os amigos conversaram e venceram a fila. Adquiriram quatro entre os últimos 100 ou 200 ingressos disponíveis àquele espetáculo. Com lugares marcados, foram almoçar durante o tempo que lhes restava. Conseguiram!

A entrada ao teatro

Ao entrar no Tetro Municipal, surpreenderam-na o requinte, os ornamentos e o luxo. Sozinha a decoração lhe provocou significativa mudança no estado de espírito. Dirigiu-se ao toalete e deparou-se com uma bela sacada, a qual dava vista para a entrada da construção. Impressionada, fotografou-a pelo celular.

Colocou seus óculos e, então, ratificou e intensificou a percepção de beleza daquele magnífico local. Iniciou-se a orquestra. Os sons a preencheram e, som a som, instrumento a instrumento tentou compreender a origem. Concentrou-se e sentiu-se completamente presente, de corpo e mente.

Algumas músicas transbordaram sentimentos de alegria, beleza e gratidão; outras causaram saudade. Apesar de ter assistido a poucos filmes do Stanley Kubrick anteriormente, envolveu-se demasiadamente. Ao início do Bolero de Ravel, seu corpo estremeceu.

O solo dos instrumentos observou atenta orientada pelos gestos do maestro, que muito admirou. Seus olhos umedeceram em ritmo de marcha. Brevemente pensou em pessoas queridas que deverasmente apreciariam estar lá. Mas como não estavam, ela agradeceu, pois ela era a única que estava sentindo o momento daquela maneira e não havia razão em afastar a mente daquele evento magnífico.

Gratidão.