segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Despedida da vó Anna

Como me senti

Tenho me sentido deveras cansada desde que soube da partida da minha vó Anna. Acordei atordoada pela ligação da minha tia por volta das 04h da manhã de sexta-feira, 10 de novembro de 2023. Inicialmente, achei que ela tinha ligado sem querer. Recusei a ligação. Ligou de novo. Conferi se o celular estava no modo “Sono”. Mais uma ligação. Eu disse “Oi” e a ela me pediu para atender porque a vó estava tendo uma parada cardíaca.

Foi traumático ouvi-la desesperada, esbravejando sobre a situação e minha mãe e pai. Atordoada, assumi a posição de acalma-la e assim continuei na convivência com minha mãe nos dias consecutivos. Deve ter sido por isso que eu não fiquei triste quando a ouvi no telefone. Fiquei atordoada, com dificuldade de saber o que fazer e irritada.

No velório, chorei pouco. Novamente, me vi sem entender se ainda estava anestesiada pelo personagem que eu estava vivendo, ou se era porque eu tinha pouco apego com ela - ou por ambos os motivos.

Segunda voltei a trabalhar. Ainda cansada, eu tinha consciência de que era importante ser leve comigo mesma. Voltei da academia pensando que iria fazer o mínimo - mas o problema é que o mínimo suficiente já era bastante trabalho, afinal eu estava no período de experiência e tinha muita carga de trabalho para entregar.

Na primeira reunião, já senti bastante vontade de chorar. Era difícil acompanhar o que estavam dizendo, meu raciocínio estava lento e eu me sentia cansada e triste. Deu o horário do lanche da manhã e eu estava sem fome, então não comi; almocei sem fome e pulei o lanche da tarde também pela falta de fome. Racionalmente, eu sabia que estava tudo bem. Vó Anna havia partido rápido, sem sofrimento, sem avisos - da forma como ela disse que faria, segundo o meu irmão. Mas ainda assim era difícil.

Eu queria ter feito uma visita sozinha a ela para ter tempo de qualidade e conversar da forma como conversamos algumas vezes em Teresópolis. Mas essa ideia só passou pela minha cabeça há umas duas ou três semanas atrás. Eu não tinha tanta consciência da fragilidade da sua saúde porque eu ouvia que ela estava mal há muitos anos, mas sempre que a via ela parecia bem.

Isso talvez aconteça porque minha vó era uma fortaleza, uma rocha. Dificilmente ela iria demonstrar que estava mal para mim. Ela reclamava com palavras, mas sua aparência física e a forma como engajava em diálogos sobre assuntos diversos da vida alheia fazia parecer que estava bem. Fazia parecer que minha mãe estava exagerando.

Parte do meu mal estar deve ser por não ter percebido a gravidade da saúde dela e por não ter vivido o momento de despedida. Minha mãe a viu na véspera e minha tia no domingo anterior à partida dela. Todos falaram que foi a despedida, pois ela tinha vindo da Itália. Pensei que ela poderia ter escolhido ir sem se despedir de mim porque eu não era importante, eu era "sem graça". Claro que esse pensamento não faz sentido, afinal ela também não se despediu do meu irmão e não acredito que tenhamos tanto poder de escolha sobre o momento da partida.

Os lutos sempre me fazem colocar a vida em perspectiva. Depois de ter passado a sexta-feira com minha mãe, a cadeia de traumas não intencionais passada de geração para geração ficou ainda mais clara e perdoável para mim. Senti tanta compaixão pela minha mãe. Tudo o que eu queria era vê-la sofrer menos e não deixar minha tia culpá-la. Eu queria defendê-la ao máximo e isso é uma manifestação de amor e de perdão.

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Sobre a vó Anna

Vó Anna tinha uma personalidade forte. Com atitude, sabia o que desejava, pensava e se impunha. Era firme consigo mesma, com as suas vontades e uma mulher à frente do seu tempo. Uma vez, conversamos sobre casamentos e ela me disse que não acreditava no sucesso de um casamento tradicional, dividindo cama, quarto e banheiro. E, dessa forma, casados, porém com a separação de espaço, ela viveu com o meu avô até o fim de sua vida.

Foi criticada e incompreendida. As minúcias do relacionamento deles não cabem a mim, nem a ninguém, mas esse é um dos exemplos do quanto ela fazia o que tinha vontade e vivia uma vida autêntica, com a personalidade dela.

Quando a conheci, não cozinhava. Dizia não saber cozinhar e comprava tudo pré-cozido no mercado. Até onde sei, não foi dona de casa, mesmo imersa na cultura machista do seu tempo. Dizer que não sabe cozinhar é a forma mais assertiva de não ser cozinheira para o restante da família.

Frequentemente curiosa e inteligente, gostava de assistir aos programas do History Channel e Animal Planet. Foi com ela que aprendi a gostar de ver documentários sobre o mundo animal: descobri que esse tipo de conteúdo alimenta a mente e relaxa. Quando eu era criança, a gente chamava de "TV bicho", e eu não gostava, pois preferia a programação infantil. Veio a adolescência, a vida adulta e passei a apreciar outros programas. Fico feliz que ela não tenha desistido de colocar o que gostava na TV; assim, eu pude conhecer os programas de que ela gostava.

Sinto saudades da época que a visitava e passava alguns dias em Teresópolis. Eram dias para desacelerar, olhar a vista e ter tempo de qualidade, assistindo a TV juntas ou cozinhando algo para ela.

Por muito tempo, ela foi exemplo de força para mim. Hoje eu troco força por outro adjetivo: firmeza, robustez. Firmeza de atitudes, estilo, opiniões, personalidade. Firmeza para saber se impor e não aceitar ser coadjuvante da sua própria vida.

Hoje eu sei que vulnerabilidade é força também. Aprendi que requer ainda mais força do que não demonstrar seus sentimentos. Ainda assim, mantenho a lembrança de força, no sentido de robustez, que a vó Anna me trouxe.

Nos últimos dias, de alguma forma, eu transmiti a robustez aprendida com a vó Anna para a minha mãe - e até para a minha tia. Com força (e vulnerabilidade), eu reconheço que preciso descansar e ser leve comigo mesma. Foi o mesmo que recomendei para a minha mãe. Talvez amanhã seja mais difícil ou tanto quanto foi hoje. O melhor que eu faço por mim mesma é me permitir sentir o que precisar e não me cobrar tanto pela produtividade.