sábado, 17 de agosto de 2013

Café com leite no copo de acrílico para cerveja

Ela nunca havia parado para escrever sobre esse assunto. Talvez porque fosse algo que não pudesse, não merecesse ser simplificado à singeleza das palavras. Ocorre que, muitas vezes na vida, começamos a entender o significado das palavras clichê e o quanto - cada um a seu tempo - todos os seres humanos se importam e têm reações semelhantes a situações típicas.
Somos seres egoístas. Sentimos falta quando o outro está melhor e choramos. Choramos com grande facilidade, porém preferimos acreditar que as lágrimas são de felicidade, ou da saudade enquanto representativa da felicidade; nunca da tristeza. Talvez nenhuma despedida seja perfeita, apesar de saber que a sua foi bastante boa. Sim, eu fico triste por não ter mais você comigo, à medida também em que questões existenciais permeiam minha cabeça. E você tinha um jeito muito especial, muito paciente de falar sobre várias coisas e de contar histórias maravilhosamente bem. Com suas generalizações e preconceitos demonstrados de maneira paciente, você talvez tenha sido a única pessoa a quem eu respeitava e me encantava deste jeito, com seu jeito de falar. Sei, ao menos, que fiz o possível para te conhecer a partir da minha maturidade, daquele momento em que aprendemos por nós mesmos a quem apreciamos dar valor. É evidente que, a mim, pareceu pouco tempo.
Hoje, peguei-me pensando em você e lembrei da vez em que visitei com minha mãe um lugar que você gostava muito. Acontece que você não estava junto, mas eu pretendia visitar o lugar novamente com você. Cheguei em casa, mostramos as fotos; acho que faltaram fotos dos canhões. No café da manhã do dia seguinte, fui presenteada com histórias sobre aquele lugar; assim, em suma, foi criada uma lembrança de uma visita àquele lugar com você na minha cabeça. E me peguei pensando nos lugares que você tanto gosta, tanto admira a beleza. Admiro muito as pessoas que, de um jeito muito simpático, formam-se como exemplos de personagens típicas com características fortemente marcadas; no seu caso, dignas de respeito, de um bom ouvido, de bons minutos com pijama na mesa da cozinha à luz de um café com leite num copo de acrílico, ou de uma segunda fatia de pão acompanha de mais um casaco, naquele friozinho do inverno constante da serra, só para poder ficar mais tempo quando me perguntava "Ei, menina, já tomou café?".
E chegamos ao fim da jornada. Sem dúvida, foi uma jornada linda.
Ao contrário do que dizem os filmes, podemos, sim, recordarmo-nos das histórias de pessoas assim sem sentir tristeza. Devemos contar os bons momentos, as boas recordações e aprendizados, enquanto vamos confortando nós mesmos, nos ensinando a viver à ausência. Devemos, às vezes, lembrar do Lenin, com suas verdades desenvolvidas a partir do ato de mentir, ou do Goebbels, acreditando no poder de uma propaganda nos momentos pertinentes e guardar tudo como boas recordações em um grande cofre da vida. Meu cofre deve aumentar sua aura de encantamento a cada dia, a cada investimento ou ação que me faz valorizá-lo.
Sei também que meu subconsciente recordou-se de você em várias situações do último dia - como vai acontecer para sempre - e foi um ótimo gatilho para, finalmente, eu realizar um esforço consciente e deixar algumas palavras aqui.
 Tenho poucas e muitas crenças, variando de acordo com o ponto de vista, mas tudo o que aconteceu nas últimas semanas me ensinou que não devemos ter medo, muito menos de partir, pois acredito que não me incomodaria se passasse mais um tempo conversando com você.
Todos os momentos importantes levam a reflexões. A partir do pensamento de um querido, acredito que devemos viver para os momentos que nos fazem felizes e para este tipo de pessoas. No fim, tudo pode ser efêmero, e às vezes merece ser.


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