quarta-feira, 8 de julho de 2015

A melhor pizza de morango com chocolate

Cena de "O Fabuloso Mistério de Amelie Poulan"

Acho que não sabemos ao certo como isso começou. Quando algo realmente é especial, é que percebemos a dificuldade de descrever e transmitir a sensação de um momento para outrem. Ademais, é gostoso guardar aquilo o que é precioso junto de mim, em vez de espalhá-lo aos sete ventos. Aliás, de onde é que vem esta expressão? No momento, consigo pensar em oito pontos cardeais, oito ventos, portanto.

Conversamos. Às vezes, o assunto escapava e ambos faziam o possível para resgatá-lo ou criar outro. Comemos. Contive meu sorriso ao ver que você estava, controlada e pacientemente, esperando eu terminar meu pedaço de rúcula com tomate seco para comer a deliciosa sobremesa de morango com chocolate comigo. Você se lambuzou, derrubou um pouco de chocolate, sujou as mãos enquanto eu não havia, até então, encontrado dificuldade para comer o meu pedaço. Estava terminando quando você elogiou esse comportamento, balançando meu equilíbrio para comer aquele pedaço de pizza com as mãos. Era como se quisesse que eu me sujasse um pouco, assim você não seria o único. E não é que funcionou? Pouco tempo depois, perdi o controle de uma mordida e comecei a rir. Você observava meticulosamente “foi meu olhar gordo”, enquanto eu ria e continuava tentando dar umas mordidas. Lambuzei-me um bocado: as mãos ficaram sujas; os lábios, grudentos, e uma gotinha de chocolate caiu na minha calça jeans clara. Imediatamente, pensei tão alto que quase pronunciei o que passava pela minha mente “Mais tarde, vou gostar dessa manchinha. Quando for limpá-la, vou lembrar desse momento tão engraçado e dessa pizza tão boa”

Tratava-se de uma pizza de morango com chocolate deliciosa, a melhor que já comi. É verdade, caro leitor, que não sei se já havia me dado a oportunidade de saborear uma sobremesa como essa antes.

Você quis ir embora daquele lugar. É verdade que já tínhamos encerrado o propósito de ir até lá, então não me opus. Ao chegar à porta, deparamo-nos com uma chuva e trocamos algumas palavras a respeito do que fazer. Claramente, você não queria voltar para dentro. Havia uma marquise na saída, então dava para esperar ali, até que chuva diminuísse. Internamente, agradeci a presença daquele tempo ruim para caminhar, já que nos faria ficar mais um tempinho juntos, sem alguma comida como distração. Ocorre que ter conversado, sujado as mãos e encontrado pontos de vista em comum lá dentro me tornou mais à vontade para estar com você. Enquanto me abraçava, estava 100% ali, sendo feliz com tranquilidade, sem medos.

Houve um momento em que lembrei de uma música a que se encaixava muito bem ao que se passava; novamente, o pensamento soou bastante alto em minha cabeça. Eu tinha uma trilha sonora para aquela cena em momento real e quase não consegui escutar o que você falava. Novamente, encontrei alguma desculpa para sorrir, rir e aliviar o foco do pensamento e não pronunciá-lo, no caso, a música que dominava minha mente. Já pensou se eu começasse a cantar? 

Não recebi críticas de maneira alguma, nem comentários desagradáveis ao meu jeito de ser. Pelo contrário, comentamos sobre como era inesperadamente bacana e acima das expectativas conhecer alguém assim. Foi uma das poucas vezes que senti que ambas as partes estavam realmente felizes, contentes, verdadeiramente querendo estar ali.

Continuamos nossa caminhada, paramos algumas vezes, sob a desculpa de que a chuva estava mais forte. Guardei minhas mãos em seu moletom e você descansou o seu queixo em meu nariz.

Sei, apenas, que desejo ter calma e ser feliz; este foi o maior aprendizado dos meus últimos meses, e também o que tem se tornado a grande meta na minha rotina. Esta sensação inclui a tal eudaimonia, da qual falo há uns bons seis anos. Ainda falta bastante para poder dizer que minha vida é eudaimônica; na verdade, sinto que estou traçando o caminho e me moldando para ser capaz de conquistá-la quando estiver pronta.

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