quarta-feira, 1 de março de 2017

Quatro quintos

Em quatro dias, terá início o seu quinto e último ano de estudos na graduação. Demorou, mas chegou. Demorou o período de férias. Demorou para se encerrar o ano 2016. Dois mil e dezesseis. Dos mil y dieciséis. Two thousand and sixteen.

As férias escolares foram uma mostra de como poderá ser o próximo ano, 2018. A consciência plena de que ela poderá não estudar - e apenas trabalhar -, em um futuro próximo, fez com que ela analisasse as atividades recorrentes e o seu próprio comportamento no cotidiano.

Ademais, sentiu que deveria agir com mais confiança perante a vida profissional. E então, com muita frequência, começaram a perguntar o que ela havia estudado na faculdade. Preste atenção ao tempo verbal: o que ela estudou e não o que ela estuda. Esta mudança era consequente (ou subsequente) à sua atenção aos detalhes. Por antecipação, começou a pesquisar potenciais oportunidades profissionais e a imaginar as ofertas que aguardam a chegada do seu diploma.

E também se perguntou - muitas vezes - se a sua rotina em 2017 estará mais próxima dos seus planos para o futuro. Será que vai haver disposição e determinação para ir além do mandatório e mínimo necessário? Será que vai ter força para mudar o rumo do seu barco frente a um mar nunca antes navegado? Será que estará mais perto de abandonar a cidade cinza?

Ainda faltam nove meses para esta jornada se encerrar. E nove dolorosas parcelas da sua festa de formatura. No entanto, a sensação de que é necessário fazer tudo da maneira correta, sem margem para erros, é pungente. Como a moça está vivendo cada momento com o máximo de intensidade permitida, realiza análises constantes sobre o propósito das suas ações. Além disso, parece que as análises se estendem ao comportamento de familiares e pessoas queridas.

Será que essa pessoa gosta de mim?

Como resultado das frequentes reflexões, buscou entender as motivações dos outros para vê-la. Seus pais vieram à sua cidade por cerca de uma semana, mas a viram apenas um dia. Não quiseram conhecer a sua casa. Encontros com amizades antigas não foram bem sucedidos. E não foram reconstruídos.

Pode ter sido um conjunto de tentativas mal sucedidas. Uma série de desencontros. Uma série de problemas inesperados, episódios de desânimo, ou depressão típica da Modernidade líquida. Ou. Pode ter sido falta de interesse. Indiferença.


domingo, 4 de dezembro de 2016

Escolhas profissionais capitalistas

expectativa com o trabalhoNos últimos dias, estava focando em trabalhos acadêmicos e temporários (que continuem vindo!), além da rotina na empresa. Nesses momentos tensos e repletos de responsabilidades, é mais fácil questionar as suas prioridades e sentir - em seu âmago - o que é mais importante.

Alguns sinais a fizeram pensar que as relações humanas são mais importantes do que o cenário, do que aquilo para o qual se dedica diariamente. Seguindo esta lógica, corresponder ao capitalismo - em vez de odiá-lo e se opor a ele, como faz nos últimos anos - não parece absurdo.

Silenciosamente, pediu perdão a todos cujas escolhas profissionais ela julgara inadequadas.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Sentimentos bons são mais fortes, mas é mais difícil abandonar os ruins

Focar nos aspectos positivos ao longo da rotina traz bem estar verdadeiro; entretanto, em nosso dia a dia, deparamo-nos com diversos problemas e dificuldades naturais que retém a nossa atenção de alguma maneira.

Ao pensar nas situações difíceis que nos são apresentadas, muitas vezes, damos demasiado foco a elas: contamos a quem está ao nosso redor, reclamamos para alguém (geralmente estimado) no whatsapp. Não contentes, muitas vezes, levamos a temática para discutir no horário do almoço, reclamar mais e dar mais foco ao que está ruim. Ainda não contentes, ao ouvir a queixa de alguém, naturalmente lembramos de um caso em que ocorreu algo semelhante. Com frequência, enveredamos a reclamação para o nosso lado, roubando o foco negativo. "Nossa, mas você não sabe o que aconteceu comigo ontem. [...] Foi muito pior."

E, então, vive-se uma disputa para eleger a pior história, a que traz mais insatisfação e sofrimento, a que merece mais destaque entre as diversas bençãos que surgem diariamente.

É fácil escrever e afirmar a ênfase que os sentimentos e situações bons merecem, porém, no dia a dia, basta um medo, para que toda emoção boa se esvaia. Basta acordar com sono, questionando a necessidade de despertar tão cedo, para começar o dia com mau humor e abrir as portas para os sentimentos ruins.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Não se compare

Hoje parece que a leveza se esvaiu das mãos deles. Não sabia dizer se tratava-se de uma consequência dos medos e das tensões cotidianos e existenciais - especialmente para ela - ou se era uma questão entre eles.

Após um dia de muitos medos e dúvidas, concluiu algo que deveria ter entendido há tempos: nós somos diferentes. Apesar de preferências culinárias semelhantes, ela era de Humanas; ele, de Exatas; ele adora cerveja; ela prefere destilados; ele come rápido; ela, devagar; ele quer construir uma carreira sólida, rica e previsível; ela, uma marca social no mundo.

Talvez seja Aristóteles, outro sábio filósofo da Antiguidade, ou algum pensador da Idade Moderna ou Contemporânea - como esse texto tem a finalidade de registrar um desabafo, não é pertinente por ora -, mas existem duas formas de amor diferentes segundo ele.

Uma delas acontece quando o casal é formado por duas pessoas com características deveras semelhantes. É como se você amasse um reflexo de si próprio (como Narciso?). A outra maneira ocorre quando duas pessoas têm características opostas. Talvez as qualidades de um devam ser - mais do que respeitadas - admiradas e completadas pelas peculiaridades do outro.

Durante aproximadamente 16 meses, não se sabe como, a moça achou que o amante tinha características muito semelhantes às dela. Chegou a questionar-se o motivo de um amor com tantas semelhanças e admiração pessoal e narcísica. Ocorre que, após alguns questionamentos existenciais propiciados pelas atitudes do rapaz, ela conversou com sua melhor amiga. Ela, por sua vez, recomendou que a moça não se comparasse com ele; afinal, eram bastante diferentes.

Esta percepção trouxe um pouco de paz. É nos momentos de dificuldade que mais se evolui, cresce, fortalece e amadurece. Compreendendo que as diferenças são maiores do que as semelhanças - não só entre o casal, mas para todas as pessoas do nosso pequenino planeta - os próximos dias deverão ser melhores e movidos por mais compreensão.

domingo, 19 de junho de 2016

Um Ano no Banana

Hoje fez um ano que um rapaz estranho convidou uma moça para sair mais cedo da aula e passar frio em sua companhia. A sala estava vazia e ela avisou o amigo - o único da classe - que iria ao happy hour ao lado. O frio criou o convite para um café, em detrimento da cevada. Ele viu Marina Person; ela, não. 

Conversaram e revelaram que eram vegetarianos. Reconheceram que pastel é uma das melhores comidas que existem. Brincaram que este apreço era o requisito para estarem apaixonados. Ela descobriu o choconhaque; ele, a bolacha molhada no café. Ele adquiriu gosto, e criaram o costume de mergulhar um pedaço de chocolate no café aos finais de semana.

O rapaz tocou a campainha, e ela espiou o olho mágico desgastado pelo efeito do tempo. Sem conseguir reconhecê-lo, abriu a porta. Camisa estilo polo coral, suéter cinza, calça caqui: seus olhos o escanearam. Ele havia se arrumado para a ocasião.

Nesta noite, jantaram em um restaurante vegetariano, o qual era mais aconchegante do que ela imaginara pela descrição online, o Banana. Conversaram da mesma maneira que fariam em outro ambiente em outra data qualquer. Compartilharam problemas e dúvidas, até que se transportaram, mentalmente, para um universo único a eles.

Analisaram o cardápio e demonstraram curiosidade pelo mesmo prato. Saborearam uma refeição completa e prometeram cozinhar algo sofisticado em um futuro breve, visto que a moça tinha um fogão novo e dois livros de receitas culinárias vegetarianas. Enumeraram os gostos não coincidentes: ela citou pepino; ele, acelga.

Mais uma vez, adormeceu e riu ao seu lado no colchão de solteiro. "Será que um dia vamos morar juntos?"

Um ano depois, ela tem a certeza de que o abraço do moço possui efeito terapêutico e anestesiador aos malefícios da vida. Sabe que não quer deixá-lo. Sente que a sua presença e o seu brilho nos olhos são a melhor maneira de fazê-la sorrir, bobamente, por período indeterminado enquanto está ao seu lado.

No dia seguinte, quando ele voltou para casa, a moça sorriu. Com brilho excessivo nos olhos, agradeceu por terem se conhecido, 

domingo, 15 de maio de 2016

Risada democrática

Outo dia, li que os bebês são capazes de dar risadas apenas para escutar o riso de sua mãe. 

Foi criado o costume de, aproximadamente duas vezes por semana, amanhecerem um ao lado do outro. O colchão é pequeno, mas estão acostumados a dividi-lo: cada ação deve ser cuidadosa, para evitar que um movimento rápido atue como um golpe ríspido.

As mãos escorregam e anunciam uma cócega de maneira intencional; às vezes, não. Assim que a investida é reconhecida, ela começa a rir. Não compreende a justificativa para o seu próprio comportamento: solta o riso quando entende que ele está rindo, e ela mesma não é capaz de parar, até deixe de cutucá-lo. Seria algum tipo de empatia? Algum recurso não reconhecido para fazê-lo rir mais intensamente?

Trocaram-se os papéis. A moça pede que ele pare o estímulo mecânico que me provoca risos, e é negada: "Mas você tem uma risada gostosa".

Você deve concordar, leitor e leitora, que o comportamento mais democrático é a moça provocar o riso do outro. Além de esse movimento fazê-la rir, ela também gosta de ouvir o riso do moço. Será que era um bebê?


domingo, 13 de março de 2016

Automaticamente

É um medo de esquecer a angústia
E de viver décadas à indiferença
À automatização
À alienação

Um brinde

A uma dívida
Seguir em frente
A o que conforta

Mais um dia sem dores

Sem ombros
Sem consciência
Sem pés cansados

Sobre o entorpetence

Não há lágrimas
Meu conforto
Dois brindes
Ele precisa

Não quero esquecer como me sinto e me tornar indiferente até o momento em que minhas estruturas se rompam. De novo. Se escrevo sobre sensações muito pesadas, é por que quero libertação. Acredito que posso me curar. Desta vez, quero provocar uma mudança efetivamente no meu ser. Quero ter a força para lutar por dias mais leves.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Profundo Medo Existencial

Encontrei-me pensando que não quero morar na cidade em que vivo hoje, não estou satisfeita com o meu emprego, e mais, sinto-me deveras mal ao longo do dia e quando saio do escritório, momento em que talvez devesse sentir alívio. Isto me faz pensar que talvez o problema esteja em mim, na minha não adequação pessoal à área profissional escolhida, nem à cidade abarrotada de pessoas. Pessoas nos ônibus, pessoas que impedem o fechamento dos trens. Pessoas que, como eu, descem do transporte público e caminham alguns quarteirões quando ele fica estagnado pela chuva que acomete a cidade cinza com tanta frequência.

Não quero reclamar, não devo reclamar, não posso reclamar, mas hoje foi o dia mais difícil do ano para obedecer a este mantra.

Tinha pendências na faculdade e quis cumpri-las apesar de ter decidido não ir à aula. À tentativa de manter a discrição, as lágrimas se despediram dos meus olhos da estação brigadeiro ao final da linha amarela. E também no ônibus. Às vezes, questiono quantas pessoas choram no transporte público no cotidiano. Como a maioria das dos cidadãos obedece a uma norma social de respeito à privacidade, não olha para quem compartilha aquele espaço aperto. 

Quando olhares se cruzam, não é educado observar fixamente, mesmo que esteja paquerando o outro. Certa vez, li que estar muito próximo de alguém representa uma ameaça, um tipo de violência. Como somos forçados a manter uma distância agressivamente próxima dos outros no transporte público, permanecemos tensos, alertas e desconfortáveis por invadir a intimidade de todos. Sendo assim, mirar a expressão facial dos outros e descobrir se há pessoas chorando não é adequado.

Cheguei à faculdade. Avistei meu amigo e fiz o máximo de esforço para não chorar de novo. Cumprimentei-o normalmente. Ele, então, perguntou “Você está bem?”. Nos momentos em que nos sentimos mais triturados do que farinha de trigo branco, esta simples pergunta é capaz de trazer todo o mal-estar indesejado que tentamos afastar da consciência. 


Abracei-o e derramei o pranto que me perseguia há alguns dias. Eu afirmava que não queria chorar e lhe pedia desculpas. Internamente, estava muito grata pela presença daquele ombro amigo, uma das motivações para continuar vivendo na selva de pedra. Acalmei a voz e enunciei os fatores que faziam  me sentir mal, incluindo dor nos ombros e no estômago. Ele disse para eu fazer algo de que gostasse, assistir a um filme, descansar e tomar um chocolate quente. Em outras palavras, não havia consolo para o que eu sentia. À falta de uma argumentação com fatores que fariam me sentir melhor, o apelo foi emocional. Para que eu não vivesse o sofrimento de maneira tão intensa, deveria procurar sensações agradáveis e alienantes.

Isto me recorda a última aula que tive sobre planejamento. Grande estudiosa do comportamento humano, a professora mencionou que é extremamente compreensível e digno que as novelas façam tanto sucesso em um país em desenvolvimento e em crise como o Brasil. Alguma hora do dia, os espectadores precisam se dar ao direito de ter conforto, já que não o encontram no cotidiano da vida real.

Amanhã de manhã, quando acordar, o rosto inchado não deixará esquecer como me sinto hoje. Ainda é terça-feira. Imagine o final da semana...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Feliz sonho

Créditos da imagem

Fazendo uma retrospectiva de 2015, amplia-se a consciência de que, neste ano, minha vida mudou em todos os aspectos. Isso me trouxe tanta felicidade que, às vezes, duvido sobre a materialidade do que estou vivendo. Para o que vivo e sinto hoje ser possível, este ano quebrou as minhas pernas em todas as três grandes facetas da vida: pessoal, acadêmica e profissional. Rumo à segunda metade da volta em torno do Sol, as renovações me proporcionaram uma felicidade progressiva.

Comumente, encontro-me questionando o que há de errado na faceta amorosa e, ao ter a certeza de que estou em uma fase genuinamente eudaimônica, lembro-me de que ainda existe um equilíbrio no somatório das esferas da vida. Afinal, minha saúde anda péssima e a nova vida profissional continua trazendo incertezas excessivas.

domingo, 20 de setembro de 2015

O futuro nos assusta

Súbito, em uma indecisão sobre estadia quando fosse viajar a trabalho, sua mente ficou muito mais borrada e confusa do que deveria. Consumiu a cota mensal de choro, sim, senhores. Faz parte. O conceito estereotipado de família não cabia à dela. Sabia disso. Ocorre que hoje a discussão interna e os pensamentos foram mais além. Assumiu que todos necessitam de uma família e sentem falta. Inclusive ela. Inclusive uma pessoa próxima que havia se afastado de seus familiares. Ele, desertor de sua família, havia adotado outras pessoas como suas queridas. Mesmo que dissesse que não se importava com a família, preocupava-se com as pessoas que pertenciam a esse grupo novo.
Seu chão se desfez com essa descoberta: a família era fundamental a essa pessoa; não sua própria, mas a que fora adotada. Todos precisavam de uma família.
Muitas pessoas não podiam  ser classificadas como família, apesar do parentesco sanguíneo. Se, na cidade onde morava, havia familiares que não eram família, imagina em outro Estado?! Ocorre que o senso comum lhe dizia que essas pessoas podiam ser consideradas.
Além disso, encontrou-se pensando sobre os próximos meses e anos: com quem moraria? Seu irmão estaria próximo? Seu parceiro gostaria de morar junto? E você? Haveria algum parceiro? E se seus amigos próximos se mudassem? Os questionamentos sobre sua profissão e a graduação que gostaria de estudar também tomaram conta dela. Este sonho se afastava, cada vez mais, à medida em que as responsabilidades de adulto eram fortalecidas.
Especialmente hoje, gostaria de conversar com alguém querido sobre essas dificuldades e medos. Não havia ninguém perto. Apesar de ter amizade com uma vizinha, não sentia liberdade, proximidade e intimidade suficientes para perturbá-la com este assunto. Não queria aceitar o convite de um vizinho para assistir a um filme. Sentia uma vontade de permanecer, o máximo de tempo possível, imóvel. Não ansiava por sair, divertir-se ou aproveitar a alienação das boates, aquela batida acolhedora e o som que superaria a altura de seus pensamentos.
De alguma maneira, o tempo hoje a lembrava os dias no interior, quando a temperatura muito quente diminuía exponencialmente a vontade dos seus parentes saírem de casa, e cabia a ela caminhar até o mercado mais próximo para comprar um pão com sorvete e caminhar com o cachorrinho. Nesses tempos, os maiores problemas eram as dificuldades de sua mãe e a maneira como ela as tornava mais intensas. Caso precisasse, alguém a levaria ao hospital para receber um tratamento à gripe; haveria companhia para o almoço, alguém que se preocupasse com ela caso não se sentisse capaz, e uma razão para gastar com comidas gostosas diferente do nervosismo da solidão.
Aqui também era sua casa. O calor e o ambiente agradável, que lhe remetiam ao conforto do antigo lar e às pessoas que se importavam com ela, deveriam ser interpretados como um sinal de que estava em casa.