quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Cores na meditação

É uma noite de quinta-feira chuvosa, levemente fria. O tecido do moletom aconchegava. Havia terminado o expediente mais tarde quando li um e-mail sobre a mudança no horário da aula de mindfulness; por começar uma hora depois, ia conseguir participar.

Hoje sei a importância de práticas desse tipo, tenho consciência de que é normal a mente divagar; o mais importante é trazê-la de volta para o foco de maneira carinhosa, compassiva. Afinal ninguém pode cuidar de nós melhor do que nós mesmas.

A professora anunciou que iríamos focar nos sons ao redor hoje. Minha primeira reação foi pensar que havia muitos ruídos desagradáveis - como os sons de escapamento de moto que ressoam quando me deito para dormir, os quais já haviam me levado a procurar empresas de janelas anti-ruídos -, mas me esforcei para manter a curiosidade e a abertura. Que tal enfrentar um dos meus inimigos do sono? Conhecer os ruídos mais a fundo?

Iniciamos focando no relaxamento do corpo. Senti que me entreguei e os músculos realmente relaxaram. Ao focar nos sons, no início, minha mente queria saber quanto tempo faltava para acabar. Há quanto tempo estávamos na prática? Abri os olhos e são 21h18...a professora também está com os olhos fechados; eu já fui melhor nisso...vamos continuar, falta pouco.

Ao levar a mente para focar novamente nos sons ao redor, novamente com os olhos fechados, minha mente foi além da privação da visão. Senti que a audição foi se ampliando, como se os sons estivessem em mim e ao meu redor. O peso dos olhos foi abandonado e comecei a ver um tom avermelhado e um pouco esbranquiçado. Eu sentia que tinha controle total do que estava pensando. Apreciei a sensação e, enquanto focava nos sons ao redor, a visão ia se tornando mais leve e dominada pelas cores. O corpo ficou leve leve leve... Senti uma profunda gratidão por este momento. Lembrei que tal tipo de experiência já havia acontecido comigo anteriormente, mas a cor havia sido azul. Além disso, tinha sido em uma época que consistentemente fazia práticas de meditação todo dia pela manhã. 

Pensei o que será que vai acontecer se eu focar na visão? Será que as cores vão me dominar mais ainda? E, então, a visão foi ficando mais esbranquiçada. Percebi que talvez eu estivesse movimentando os olhos - revirando, será?. Assustada, decidi pausar o meu experimento. Profundamente feliz por ter vivenciado tal experiência.

Minha experiência fugia do mindfulness, da atenção plena? Era positiva ou negativa? Será que as colegas, que eu não conhecia, me receberiam bem se eu compartilhasse tal experiência na roda de conversa? Não sei as respostas porque optei por levar essa leve lembrança apenas para cá.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

"Não sei se compro uma bicicleta ou caso", como diria minha mãe

A indecisão está me causando uma tão cara sensação de paralisação.
Quando eu era criança, das indecisas minha mãe dizia "não sabe se casa ou compra uma bicicleta". Sempre achei uma expressão esquisita, já que as duas coisas poderiam acontecer concomitantemente, mas, de qualquer forma, ilustra um pouco a situação de lidar com escolhas que teriam consequências deveras diferentes.

Não sei se faço nada nas férias ou se pego um freela.
Não sei se continuo no mesmo trabalho ou participo de processos seletivos
Não sei se aceito participar de processos seletivos nas férias ou só descanso
Tenho vontade de aceitar o freela e o case do processo seletivo, mas medo de não descansar o suficiente 

Uma vez me disseram que algumas decisões eram feitas em apenas três segundos. Será que estas eram assim? Minha primeira decisão tinha sido a de aceitar. Aceitar trabalhar durante as férias. Aceitar fazer o freela e o case. Onde ficaria o ócio não sei. Em todo caso, ruminar a decisão me cansa; ter medo de me arrepender por não ter continuado me cansa. Tempo livre me sobra.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Se eu não me acolher, quem irá?

O controle é uma vontade ilusória.

O autocontrole ma reação, possibilidade de libertação 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Basta!

Perceber que podia focar no que desejasse, ser quem realmente era e, mais do que tudo, aceitar que ela nunca havia sido a pessoa mais importante na sua própria vida, nunca havia se bastado, nunca havia sido o suficiente (para ela mesma) - e esta inquietude e falta de aceitação que vem de dentro fizeram dela mesma uma pessoa insegura e em busca incessante pela aceitação, pela afirmação, pelo elogio - lhe trazia um estranho sentimento de liberdade, uma tão cara porém finda apreciação pelos detalhes do cotidiano, uma vontade de se admirar, de se amar verdadeiramente e de repudiar qualquer intenção - que veneno! -, vinda do mundo exterior ou interior, de se comparar.

Sem dar passos demasiado largos na jornada da autoconfiança, sem expectativas sobre o amanhã, ela se prepara para dormir e pensa que se basta.

Até a próxima sessão.





quarta-feira, 8 de abril de 2020

Não existe a vida sem a morte

Foi o que ouvi em alguns vídeos após buscar consolo, no pesquisador de vídeos, através da voz de pessoas sábias. 

Aceitar a partida da minha avó em meio a uma pandemia não foi tarefa fácil. O acompanhamento por alguém próximo nos últimos dias, o abraço no hospital, o velório, os abraços em família - todos símbolos frequentes na despedida de uma pessoa que não está com a saúde boa - não puderam existir. Foi assistir ao meu maior medo na pandemia se tornar realidade.

Fizemos uma homenagem em videochamada: meus pais, eu e meu irmão; escrevi uma carta para ela, que colocarei em outra postagem. Que ela saiba o quanto é querida! Mesmo que não tenha havido um velório formal com as pessoas queridas.

Várias pessoas me disseram para olhar para a partida dela como um "até logo". Se sinto falta e fico triste com a ausência dela é por que tenho ótimas lembranças, é por que admiro muito a pessoa que ela foi, é por que desejo deixá-la feliz e orgulhosa. E vou buscar dar este orgulho sempre, como se pudesse mostrar para ela. No coração (e quem sabe no futuro) sei que estará comigo. 

Que tudo possa ser vivido com mais intensidade, coragem e menos medos. Que eu possa ser aquilo o que eu sinto que preciso ser e me inspire pelos comportamentos e hábitos de quem admiro. Que a vida possa ser investida nas pessoas e iniciativas que acreditamos merecer a nossa energia - e que possamos dar o nosso máximo, uma vez que as escolhas foram feitas. Que não tenhamos medo das consequências de se viver com intensidade, da consciência de que, para cada escolha ,existe uma renúncia. Isto posto, o fundamental é escolher o que o coração manda, sem ferir quem nós somos e o que desejamos. 

Há tantas semanas em isolamento, sem poder se reunir com outras pessoas, além de quem está morando comigo, surge uma compreensão a respeito do que é mais importante para mim, de quais são os momentos simples que me fazem mais falta.

Algo que, com certeza, não farei mais quando tudo voltar ao normal é ir a encontros sociais com pessoas que não conheço e não estou confortável para conversar ou com vontade de criar vínculos. Nosso maior tesouro é o tempo: quero dizer que, ao ir a um evento com pessoas que pouco importam para mim, estou desperdiçando o tempo que poderia dedicar a pessoas queridas, ou a atividades que me agradam e que eu poderia fazer só.  

Sinto falta de ver minhas amigas, meu irmão, meus pais, de ouvir meu avô tocar violão, de almoçar uma comidinha caseira da família, de ir ao Parque da Cidade, de ver exposições novas nos museus de São Paulo, de provar um vinho novo, de conhecer lugares diferentes, de fazer perguntas em Espanhol, de conhecer a cidade andando de bicicleta, de sentir o sol passando pelo meio das árvores, de tomar um café com o meu irmão, de abraçar a minha mãe, de ter sonhos e planos de longo prazo.

Sendo assim, eu quero começar os próximos dias mais acordada, mais consciente e dona do que eu estou fazendo com a minha vida. Quem sabe agora pode ser a hora de começar um projeto pessoal, como aquele do blog de viagens. 

Quem sabe eu consigo voltar a sonhar e a fazer planos de longo prazo.

Despiertate!

Lista do que fazer quando acabar o isolamento

  1. Almoçar na casa dos meus pais
  2. Levar o meu vô para passear (quem sabe ver alguma orquestra?)
  3. Visitar alguma exposição em um museu
  4. Pedalar do Jaguaré até a Faria Lima
  5. Chamar o meu irmão para jantar em casa
  6. Chamar minhas amigas para beber em casa (com antecedência, para ninguém desmarcar)
  7. Jantar em um lugar bem bonito com o Gui
  8. Sair com a Sté em Campinas
  9. Assistir ao por do sol em um lugar bonito
  10. Ir ao Parque da Cidade

domingo, 31 de março de 2019

Aquilo o que não era. E tudo bem

Não queria mais se incomodar quando as outras pessoas se sentissem com autorização para criticar, destrutivamente, sua personalidade.


Era quieta, e subentenderam que ela não tinha comportamento determinado. Disseram que precisava ir atrás dos seus sonhos, pois "foi o que as pessoas da família fizeram".

Agiram como se ela fosse uma pessoa que não faz nada. Falarm como se a moça tivesse dinheiro suficiente para sonhar sem limites. Seus dois maiores sonhos foram ser aprovada na USP para o curso de Publicidade e Propaganda e morar fora da casa dos seus pais.


Depois, as suas próximas vontades foram barradas por questões financeiras, ou por falta de perfil: nem sempre o que você quer é o mesmo que as pessoas decisoras procuram. A vida adulta chegou e impôs seus limites naturais.


Mesmo assim, conquistou coisas das quais não se vangloriou e que suas algumas pessoas da família mal sabem que conquistou, devido ao seu silêncio.


O motivo? Não simpatizava com o comportamento dela, que reforça tudo o que rendia histórias interessantes nela e no seu filho - todas decorrentes de oportunidades que a maioria da população carecem - muito provavelmente por insegurança.


Estava em paz consigo mesma. Orgulhava-se de ter sido aprovada na faculdade, de ter conseguido pagar seus aluguéis durante a graduação e de ter assumido um cargo de gestão aos 23 anos. 

Mas orgulhava-se mais da capacidade de ouvir aos outros pacientemente e com empatia.

Orgulhava-se me também da humildade. Tinha consciência de que não era a melhor pessoa em muitas ações e atitudes. 

Não era a melhor profissional de marketing digital: não era a melhor SEO, a melhor redatora, a melhor planejadora, muito menos a melhor mídia. 
Não era a melhor filha, a melhor neta, a melhor amiga. 

E tudo bem. Enquanto permanecia receosa de não ser boa o suficiente, permitia-se aprender e ouvir mais.

Mas, caro mundo, muito lhe cansava ouvir críticas ao seu tom de voz baixo, aos seus poucos comentários; cansava, também, conversar com pessoas que adoravam projetar as suas próprias vontades nela, talvez por pensarem que ela não tinha as suas próprias, já que não apreciava comunica-las para qualquer pessoa.

Ao termos empatia, entendemos, pelo menos um pouco, as motivações de outrem e, então, conseguimos agregar a compreensão do outro ao nosso universo particular, finalmente ampliando a nossa própria complexidade.

domingo, 13 de maio de 2018

Quantas vezes você já pensou que a vida não faz sentido? E que não há razão em viver?

Um vale mais longo do que o esperado

Há quase três anos, estamos em um relacionamento amoroso frutífero. Assim como nas outras facetas da vida, em nossa relação, teve altos e baixos; em uma analogia com a propagação de uma onda, houve cristas e vales.

Eu, ou qualquer outra pessoa em um relacionamento de longa duração, estaria mentindo se afirmasse que tudo foi sempre ótimo entre nós. Descrevendo desta maneira, quem me lê pode pensar que houve períodos de discussões, de brigas, de falta de respeito...Contudo nada disso ocorreu. As discussões que se deram foram pontuais e não necessariamente estiveram ligadas a um momento ruim do namoro; a título de nota de rodapé, declaro crer que desentendimentos e discussões fortalecem os relacionamentos humanos.

Ocorre que, em alguns vales, senti que você estava mais apático, distante, desanimado na minha presença. Em outro, identifiquei que você estava ainda mais distante: gestos simples, como espontaneamente segurar a minha mão ou me dar um beijo de boa noite não eram usuais; o desânimo dominava-te ainda mais e raramente o via sorrir. Sendo você alguém que não fala sobre sentimentos, tornou-se deveras difícil notar se havia um problema entre nós, se faltava sentimento entre você e mim, ou se havia um transtorno em você, quer dizer, entre você e o restante do mundo.

Neste último vale, demorou para eu imaginar que talvez você estivesse passando por um período ruim consigo próprio. Minha reação imediata (que durou algumas pungentes semanas) foi pensar que não gostava mais de mim. Naturalmente, não sei o que se passa em sua mente e, ainda hoje, não conheço quais são as motivações para o algo estranho que há entre nós.

Se o comportamento espelho nos dominou, provavelmente você pensou o mesmo de mim algumas vezes; possivelmente, teve a mesma impressão que eu nas últimas semanas. Tenho certeza de que, para você, nós tivemos cristas e vales; primeiro, porque conversamos sobre isto uma vez; segundo, pois tenho consciência de que eu vivi situações difíceis comigo mesma, o que certamente sensibilizou o nosso relacionamento nos momentos em que eu estava mal. 

Aqui, uma das diferenças entre nós a qual se torna evidente é que eu procurei demonstrar como estava me sentindo em todas as ocasiões difíceis; além disso, certifiquei-me de que você compreendia que não era a razão da ansiedade patológica que me assolava. Nos dias atuais, ainda não sei qual é o motivo da sua estranheza. Por ora, aguardo o início de uma nova crista.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A magia do Teatro Municipal

Sábado, 27 de janeiro de 2018

Ela compareceu ao primeiro evento o qual provocou uma imensa e positiva surpresa no ano.


A espera

Passaram duas horas e 20 minutos na fila: ela, seu namorado e duas amigas, antes de conseguirem ingressar no teatro. Rumo ao final da aglomeração, avistou um colega do seu antigo trabalho. 

Sempre sorridente, ele parecia não ter envelhecido desde os últimos dois anos - contrariamente à moça, como suas olheiras profundas evidenciavam. Era um rapaz simpático, curioso - fosse por natureza pessoal, ou hábito profissional, adquirido após cinco anos de trabalho em instituto de pesquisa. Ela havia sido assim também: manifestava curiosidade e interesse pelas minuciosidades, sorria e buscava entender os sentimentos de todos, como se estivesse entrevistando qualquer um que falasse com ela.

Talvez motivada pela demasia de sentimentos cinzentos, a jovem não procurava entender as emoções dos outros em profundidade, afinal sequer sabia lidar com as suas próprias. Entretanto, sorriu, agradeceu por estar com a maquiagem bem feita e uma roupa bonita: estava ótima por fora e, consequentemente, por dentro. A conversa durou pouco tempo e arrependeu-se apenas de não ter mandado um abraço à sua antiga chefe.

As costas doeram, assim como os pés. O sol raiou mais forte do que imaginaram. Os amigos conversaram e venceram a fila. Adquiriram quatro entre os últimos 100 ou 200 ingressos disponíveis àquele espetáculo. Com lugares marcados, foram almoçar durante o tempo que lhes restava. Conseguiram!

A entrada ao teatro

Ao entrar no Tetro Municipal, surpreenderam-na o requinte, os ornamentos e o luxo. Sozinha a decoração lhe provocou significativa mudança no estado de espírito. Dirigiu-se ao toalete e deparou-se com uma bela sacada, a qual dava vista para a entrada da construção. Impressionada, fotografou-a pelo celular.

Colocou seus óculos e, então, ratificou e intensificou a percepção de beleza daquele magnífico local. Iniciou-se a orquestra. Os sons a preencheram e, som a som, instrumento a instrumento tentou compreender a origem. Concentrou-se e sentiu-se completamente presente, de corpo e mente.

Algumas músicas transbordaram sentimentos de alegria, beleza e gratidão; outras causaram saudade. Apesar de ter assistido a poucos filmes do Stanley Kubrick anteriormente, envolveu-se demasiadamente. Ao início do Bolero de Ravel, seu corpo estremeceu.

O solo dos instrumentos observou atenta orientada pelos gestos do maestro, que muito admirou. Seus olhos umedeceram em ritmo de marcha. Brevemente pensou em pessoas queridas que deverasmente apreciariam estar lá. Mas como não estavam, ela agradeceu, pois ela era a única que estava sentindo o momento daquela maneira e não havia razão em afastar a mente daquele evento magnífico.

Gratidão.